Comportamento suicida e automutilação


Qual a relação da adolescência com as tentativas de suicídio e automutilação?

A adolescência é a faixa etária da existência humana, na qual o indivíduo faz uma travessia subjetiva importante. Ou seja, é chamado, a partir de suas primeiras referências, à construção de suas próprias – as primeiras referências são as figuras de autoridade. Durante esse período o adolescente está em processo de desligamento das figuras de autoridade e definindo suas escolhas (sexualidade, amizade, lazer, profissão etc.).

Podem ocorrer nesse processo de construção do indivíduo perdas e a diminuição da energia psíquica, quando o “eu” se apresenta com o afeto de tristeza, o que pode levar a inibição da fala, da locomoção, da sexualidade e do estudo. A partir dessa inibição pode ocorrer a depressão, que é uma das formas clínicas da dor de existir.

A depressão também é uma resposta à perda de um ideal, podendo ocasionar a perda do desejo e levar também a atitudes de “eu não sou”, “eu não posso”. É importante perceber os vários tipos expressos de depressão e sua associação a outros fenômenos como o álcool e outras drogas, a gravidez, os transtornos alimentares...

Logo, se o indivíduo se encontra deprimido, sem forças, quase sem saída, ele poderá lançar mão da morte como a solução para o seu sofrimento, pelas tentativas de suicídio ou pelo próprio suicídio. Nas tentativas de suicídio podemos dizer que o adolescente faz um acting out, ou seja, esse modo de agir é sustentado pela vontade de por em evidência um sofrimento e o suicídio é a “passagem ao ato”.

Já a automutilação ou cutting tem como objetivo chamar a atenção negativa e funciona como uma válvula de escape para aliviar o sofrimento. Funciona como um “analgésico” para a dor emocional e não tem a intenção consciente de causar a própria morte. Entretanto, quanto mais o adolescente repete esse comportamento, mais ele se coloca em risco. Uma estratégia que ajuda a quebrar esse ciclo vicioso é limpar bem as feridas e fazer compressas geladas na região onde ocorreram as lesões.

Além disso, as autolesões podem ser porta de entrada para formas mais perigosas de tentar sanar suas dores emocionais internas. A lesão corporal pode, também, se apresentar como “defesa contra a angústia e como alívio da tensão psíquica”. Quando não conseguimos falar ou demonstrar nosso sofrimento emocional (tristeza, angústia e até mesmo raiva), nossa mente cria formas para disfarçar esse sofrimento como um mecanismo de defesa e de alívio.

O comportamento automutilatório não consiste apenas em se cortar, mas pode se manifestar de maneira mais “sutil”, por meio de arranhões, puxar fios de cabelos, furar-se de propósito com objetos pontiagudos ou até mesmo arrancar as sobrancelhas ou fazer piercings em várias regiões do corpo.

Alguns adolescentes encontram nas redes sociais grupos para trocar seus problemas, o que é uma maneira de pertencer a algo e é onde eles compartilham seus cortes e suas angústias. A família precisa entender que é um problema comportamental e que existe tratamento.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alerta os pais e responsáveis sobre a importância do diálogo com as crianças e adolescentes para evitar a exposição desse grupo vulnerável às comunidades ou “jogos” em ambiente virtual (sites, redes sociais, grupos de Whatsapp) que estimulam a prática do suicídio, da automutilação e da participação em atividades de alto risco, entre outros problemas. Leia mais no artigo no site da SBP.

Como identificar os sinais de automutilação e suicídio:

Atos de bullying na escola ou cyberbullying nas redes sociais
Baixa autoestima
Depressão
Disfunção de imagem corporal
Violência intrafamiliar
Abuso sexual
Pensamentos de morte ou suicídio
Tentativas de suicídio e histórico de suicídio na família
Baixo rendimento escolar e recusa de ir à escola
Pessimismo
Choro frequente ou crises de raiva
Autopunição
Angústia
Sentimento de insuficiência e de incapacidade
Sentimento de vergonha e autodepreciação
Mudanças bruscas de humor
Isolamento
Ansiedade
Impulsividade
Uso de substâncias tóxicas
Agitação (insônia) e desesperança
Uso de casaco com mangas compridas mesmo no verão.
Não conseguir explicar as cicatrizes, por exemplo, nos braços ou pernas
Evitar situações nas quais tenha que expor seu corpo, como praia ou piscina

Tratamento:

Apoio da família e acompanhamento por uma equipe multidisciplinar (pediatras, psicólogos, psiquiatras e terapia de família) são de suma importância. Há também grupos de apoio voluntário como o Centro de Valorização da Vida com funcionamento 24h pelo telefone 188.

Conte também com o apoio da equipe multidisciplinar da Clínica de Adolescentes.

Por fim, deixamos duas recomendações de leitura: uma da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Manual de Orientação para os Pais, disponível aqui; e outro uma pesquisa recente publicada na revista Adolescência & Saúde, que demonstra a influência da internet nas autolesões.

Dra. Daniela Lemos, psicóloga da Clínica de Adolescentes

BIBLIOGRAFIA
1.  Freud, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. VII Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1987.
2. Freud, S. (1929) O mal-estar na civilização in. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXI Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1976.
3. Freud, S. (1925-1926). Inibição, sintoma e angústia in: Edição Standard Brasileira das obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XX Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1976.
4. Paim, Isaías, Curso de psicopatologia /Isaías Paim – 11. ed.rev. e ampl. – São Paulo: EPU, 1993.
5. SILVA Jr.; Nelson.; et al Estudo das marcas corporais na modernidade: sustentar a causa do sujeito; Lat-Am. Jornal of Fund. Psychopatn. Online. São Paulo, p.143-152, acesso em março de 2019.
6. https://www.infoescola.com/comportamento/automutilacao/ Acesso em 17.03.19.
7.
https://www.sbp.com.br/sbp-em-acao/saude-de-criancas-e-adolescentes-na-era-digital./ Acesso em 17.03.2019

 
 
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